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domingo, fevereiro 15, 2009

onde temos o amor entre as mãos



amor. tenho que te escrever isto amor. tenho as palavras entre as mãos e onde quer que estejas as palavras estão de mim para ti. desculpa amor, escrever-te. o teu corpo que tenho entre as mãos não é nada se o que tenho são as palavras dele, tens, que onde eu estou amor, é como se fosse o mundo inteiro, um só corpo todo ele as palavras, amor. amor, que estamos para onde estamos a ir, que o mundo inteiro nos separa e espera, amor, e as palavras então que tenho entre as mãos para onde as tenho que ir levar, amor. amor, leva-as contigo para onde vais que eu não as levo para onde eu for para que possas ficar com elas. amor. não sabemos o que temos entre as mãos, as minhas e as tuas se não as palavras para nos ajudarem a dizer o que temos. amor, que morram as palavras antes de nós. e que não sobre nenhuma que diga o que as nossas mãos escrevem.

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segunda-feira, agosto 18, 2008

estória


(IV)

A. que tudo sabia por ter entrado na sombra e nela ter sabido os segredos, regressava. os segredos imperfeitos sem palavras a compor o segredo final que estava no fim do caminho que era da luz das árvores feito. no escuro as árvores postas no chão brilhavam contra o céu da noite do regresso que não tinha estrelas. as estrelas na noite outra imaginadas para sempre porque nunca mais as veria A. o regresso não tinha estrelas porque só tinha a luz das árvores mortas por dentro a fulgir em cortesia com o resto da noite escura. A. era as estrelas também a regressar à morte.

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quarta-feira, julho 30, 2008

estória

(III)

longo, labiríntico o caminho nos pés e no estremecimento deu-se A. para a floresta profunda. a floresta profunda nos seus braços era o não-caminho, que era a resolução e a sorte, que era o encontro que findava no lugar de si, ainda não a morte. a floresta profunda era o princípio, o seu princípio de tudo, onde estava o céu entrando pela terra dentro como se a terra fosse vazia e o lugar da sombra de A. a intersecção primeira de si com o regresso.

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quarta-feira, julho 23, 2008

estória

(I)
imensamente implicada no acontecer daquele dia, A. decidiu que o tempo seria o que dele nascesse, o que dele não sobrasse como circunstancial. irrompeu como caminho, ele próprio sem modo. não olhou para trás para que a vontade não fosse a mesma de ontem nem jamais a de amanhã. em cada milhar de rostos que fitou, viu o assombro de uma revelação.

(II)
quase de partida outra vez, nos olhos olhados antes, padeceu de um estremecimento que era maior que o seu corpo. habitando o estremecimento na tentativa de o compreender, percorreu todas as ínfimas possibilidades do seu não-caminho para ter a certeza que o conhecia ao outro, o caminho de depois. A. era o estremecimento na pessoa que queria ter um lugar para ir, o ir de não ficar, o ir de saber que era adiante. A. tinha sombra, existia portanto.


Exercício em construção e em diálogo com o trabalho de ilustração de Atsushi Fukui, originalmente publicado aqui (versão texto).

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quarta-feira, março 05, 2008

adágio abstersivo* sobre c.

Pergunta-te o caminho e o teu caminho ficará depois da última história, a impossível. Que milhares te habitam? Que milhares te imaginam procedência e te advêm como possibilidade e metamorfose no 7º andar de quem olha cá para baixo imenso na raridade de experimentar. Esse, O Medo a caber-nos perplexo e glacial a acontecer no pasmo indiferente com que nos espreitámos da janela. Lá em baixo te esperarão. Nos esperarão. Fleumas, lentidões, o desprazer do efémero mais do que a desordem do trajecto impiedosamente perseguido até ao fim. Somos a cólera impugnante. Quem passa e que mais não será? Teatros e desgraças a fazer de conta que têm um destino mais do que nós. Que milhares serão? Que ineptos e que desordem afinal te alui? Exigência pela nulidade antecipada e pelo silêncio em forma de existência abjecta. O ritmo teu exagerado, a sorte igual em tamanho e feitio para todos, a deserção imperiosa, a impertinência do entendimento. Matéria e sentença sobre a matéria. As pessoas e o constrangimento do reduto final.

* - mundificante

Texto originalmente publicado em Revista Big Ode #4 (edição impressa).


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sexta-feira, dezembro 14, 2007

Com o que é que sonhaste esta noite?

Diz-me que foi com a morte que te caiu nos braços e te prometeu o outro lado, que acordaste depois, olhando de dentro esse longe que te habitava no mundo. Mas e o silêncio que explodia por dentro?

H. não, jamais me respondeu. Por isso agora emudeceu ao fim da tarde sobre o dia de chuva quente, muito quente, tão quente que lhe há-de apetecer despir a pele e ficar somente como um fim da própria alma.

- Mas então, porque perguntaste?

O silêncio cabe-te todo impossível dentro de ti. As tuas palavras são um rumor violeta, abeirado numa pequena esquina depois de amanhã.

- Pergunta-me outras coisas que não peço. Mas não me perguntes pelo sonhos.

Não pergunto. O teu depois acontece ao mesmo tempo que o meu.

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quarta-feira, novembro 28, 2007

palavras outras

Hei-de ver o silêncio estilhaçar-se no mundo todo.

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sábado, novembro 10, 2007

o dia (imitação)

Por causa da noite, e de muitas outras coisas que então não lhe ocorriam, não atravessou a estrada. Ficou a vê-la atravessada no espaço a caber cheio de possibilidades, como se tudo se resumisse a um minuto de imaginação e dele não dependessem todos os outros que se seguiam. Aquela cidade abendiçoada era a história última de um dia inteiro sem ter que ser o primeiro em nada. O ser o último chegava-lhe muito bem. Ainda que isso significasse ficar no mesmo lugar, horas e horas sem, sem fim. Porque o fim, esse, era ali mesmo, debaixo dos seus pés.

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