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quinta-feira, março 04, 2010

do fim como do princípio do poema (v.)

k.

à morte

do poema

ciclicamente regressas

durante o resto do poema.


e regressas porque

nunca mais

é

nunca mais

para sempre

ciclicamente.


Poema originalmente publicado em Oficina de Poesia nº14 II série, Palimage, Março 2010.

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sexta-feira, maio 08, 2009

'o poema que alguém escreveu'*

'Fotografias no avesso, Da consciência fugidia, Hão-de exigir-nos o seu preço, Para a melancolia’

FPA


que seja o lugar infinito. e que seja uma metamorfose dos átomos a transformar-se numa outra coisa outra que é essa que o é só para que seja depois outra e mais outra e outra ainda. que o tempo imperecível te escolha e num quarto escuro poeirento vejas a luz sucumbir ao teu pensamento a passar pelas coisas sublimes da memória. que as palavras te salvem de dentro de ti e com elas faças os livros cheios do que não cabe em mais lado nenhum outro. de dentro deles que se faça o tempo e que sejas por uma noite a consternação de teres dentro de ti o tempo e que saibas que nele não existe nada a não seres tu dentro das outras coisas dentro do mundo inteiro.




*. Vinicius Dantas

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sexta-feira, novembro 14, 2008

o silêncio branco das manhãs

diante do branco não dizemos nada

o silêncio está em branco. escrevo: o diálogo dos pássaros condenados de não saberem voar tem o silêncio por dentro. escrevo: estou a escrever por dentro do silêncio para que os pássaros condenados não me ouçam. estou a escrever: doem-me as mãos de os pássaros não saberem voar. escrevo para as mãos não me doerem: o mundo está perplexo à minha volta ante os pássaros parados. escrevo. escrevo outra vez. este aqui é o momento em que estou a escrever. os pássaros demoram-se horas, e as horas demoram-se mais outra vez por causa dos pássaros. as horas enquanto eu escrevo, estão as horas a passar, enquanto eu escrevo, e das horas ficam os segundos infinitos, cheios de pássaros em silêncio toda a manhã. eu escrevo: os pássaros toda a manhã estão em diálogo porque não se podem ir embora, e falam uns com os outros. o silêncio está entre eles no diálogo entre os pássaros de umas manhãs para as outras. os que ficam condenados são os que dizem: estamos a cegar de não termos para onde ir. vemos sempre o mesmo. os outros, das outras manhãs, nós também, vemos sempre o mesmo, e o mesmo é sempre o mesmo mundo. tu dizes, em silêncio tu dizes: escreve. escrevo: estou a ensurdecer de tanto silêncio dos pássaros parados que não têm para onde ir. e estou a cegar também porque tenho os olhos cheios de branco que é a cor que o silêncio faz ante os pássaros parados. e os ouvidos cheios de silêncio. dizes, escrevo: é mais manhã ainda agora que o silêncio é o que tenho. e tu não dizes nada porque é o silêncio o que tenho. e tenho os papéis em branco dentro dos dedos cheios que eu tenho e estou a ouvir os pássaros a dialogar. estou a ensurdecer dos pássaros condenados a dialogar. estou a ensurdecer também de tu não dizeres nada. as manhãs estão inteiras cheias de pássaros a dialogar. o silêncio está em branco de eu não escrever nele. tu não dizes nada e o silêncio está em branco. escrevo: os pássaros não voam de estarem condenados ao silêncio em branco quando não têm para onde ir. escrevo: as manhãs estão brancas de tanto silêncio em branco quando tu não falas e eu escrevo.


Originalmente publicado em Micróbio.

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segunda-feira, junho 09, 2008

nascimento

abstraction of a hole
Henri Bateman


Os prédios altos em forma de morte nascem no Teu Berço. O Teu Berço, Meu o espanto colossal, rompendo pela janela e pela madrugada luminosa. As revelações tuas no instante de uma noite dentro de si, sem casa e apenas noite do dia sem começo. Aquém, os lençóis quedam-se brancos, e no entanto, imaculados e perfeitos de uma ausência que é Senhora no Berço e a Negação. Não durmo, não sonho. Não durmo, não sonho. Serei esta história interminável, sem interdição nem o contratempo que é o limite do meu nascimento. E sonho-me, só depois da negação, como impossível de mim, na permanência de não ser sonho. Podes tu embelezar-me dentro do tempo ou fora dele. Tu escolherás, querendo como ser, sendo, querendo ser como o tempo, nada. E depois, na morte, serei alguma coisa mais. O fim do sonho, serei.

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terça-feira, fevereiro 12, 2008

breve diálogo sobre o olhar

prelúdio
O indiscreto e pungente olhar que não tinha era usado como compromisso de ver para além do vazio. Importava-lhe apenas o silêncio que lhe era uma promessa de retorno insustentável ao seu reduto onde não existiam conclusões impostas ao pensamento de si sobre os outros. Julgava a compreensão da ausência do olhar como estigma que o responsabilizava pelo atrevimento da insuportável imaginação.

diálogo
- “Eu queria perguntar-te em que olhas quando pensas mas tu pedes-me para te pensar enquanto te olho.”

- “Porque não te olho sem pensar que o olhar não existe mas apenas o pensamento sobre o olhar. Se soubesse que existias, não te olhava.”

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quinta-feira, novembro 22, 2007

pactos depois do mundo

Dois minutos e dez segundos podem muito bem ser o tempo exacto de uma vida. “Mysteries of Love”, de Ângelo Badalamenti, em Blue Velvet ou noutro lado qualquer, é a prova disso mesmo.


Imagem: Juan Jose Cambre

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