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Terça-feira, Novembro 03, 2009

de onde o lugar onde se transforma


em luz.

um lugar é só um lugar como o que é.
por o ser

gosto desse ter que ser dessa forma, tão simplesmente sendo aquilo que tem que ser. gosto que as palavras sejam dessa forma também, descobrindo a luz do seu lugar em cada sílaba escondida no escuro em que está cada uma antes de ser escrita. gosto dessa forma delas serem o fim, como algo que chega ao fim como chegou do princípio, quase a mesma coisa ao mesmo tempo. gosto desse tempo parado da luz quando as palavras ficam paradas no escuro a brilhar dentro delas e as vemos como se o escuro fosse só um lugar impossível das palavras. gosto que a luz não seja nada a não ser uma palavra breve a dizer que existe. gosto que o mundo todo seja só isso.


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Terça-feira, Outubro 27, 2009

()

S

há pensamentos rasgados,
como líquidos de amioses
e doenças inteiras
do

corpo.

há palavras paradas
e poetas em flancos,
à espera do que nunca se

escreveu.




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Segunda-feira, Outubro 19, 2009

via ápia (que não é do Richard Zenith)

s.

não está lá nada,
um pouco a mais de cada ano
estátuas de bronze, mamarrachos,
comezais, latim esbranquiçado
E desoutros mais do que decifrados
momentos.

talvez no próximo século
reste uma pedra
e os nossos pais não terão de comemorar
tendo visto
A grande via Ápia, mortal,
não como um sonho.

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Quinta-feira, Outubro 08, 2009

não posso escrever a chuva está a cair

S

não posso escrever sobre o que acontece. não posso dizer que acontece o que não acontece porque está já a deixar de acontecer. não posso querer saber do que não está a acontecer porque só sei do que aconteceu e mesmo o que aconteceu já deixou de ser o que aconteceu quando aconteceu. não posso dizer que vou escrever. não posso escrever que estou a escrever. não posso esperar para poder dizer que posso escrever porque então estou a escrever sobre aquilo que não posso escrever. não posso dizer que vou escrever. não posso escrever quando estou a escrever porque as palavras se escrevem a elas próprias quando alguém as tenta escrever. não posso falar do que escrevo ao mesmo tempo que não posso não dizer nada porque digo tudo quando estou a dizer que não estou a escrever nada.



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Domingo, Setembro 13, 2009

quando eu era viva ou se pelo contrário

escrevo onde me dói.

por cima da linha na margem,

em frases de linhas rectas

que não acabam.


onde me dói.


por cima do que me dói.

para doer mais e escrever mais.


para não parar de escrever,

para não parar de doer.



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Domingo, Julho 26, 2009

fragment of a poem #7

Oslo


«Entrar num território desconhecido é experimentar a ruína, é lançar voluntariamente o corpo numa queda da qual há-de regressar, ou não, apenas com a certeza de se ter, ainda que por breves momentos, realizado plenamente.» (Henrique Fialho a partir de Teoria da Viagem, de Michel Onfray)

sobre a

teoria desconhecida

da

natureza


do álamo,


escreves:


bulder.


da

natureza do álamo: bulder.


diz outra vez,


como se escreve?

apressado.


como se pensa?

esconjurado.



álamos por toda a parte,

sem lugar

nas geografias poéticas incompletas.


teorias desconhecidas das

palavras,


das palavras.


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Quinta-feira, Julho 16, 2009

fragment of a poem #6



de naturezas falsas

as palavras por essa dor de palavras


do tamanho das folhas de papel

que me mentem

como folhas

de papel vazias

sem dizer


nada


onde estão as folhas,

ou as palavras no lugar

das folhas

que explodem

fragmentos

de outras coisas

palavras

ainda eu possa

em que podia estar.

como uma palavra onde estão

as folhas.

digo,

folhas no meu lugar,

eu no lugar das palavras

mortas

esquartejadas e

levado cada pedaço delas

por

por onde forem as pessoas,

ficaram com elas

que

pergunto onde

foram as pessoas

e

as palavras delas.

pergunto pelas palavras

como são

esquartejadas

umas das outras.

digo que chega

de esquartejarmos as palavras.

digo que nascem

mil pessoas

em silêncio

no lugar

de uma palavra

es

quar

te

ja

da.


Originalmente publicado em Aranhiças&Elefantes.

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